Escreve a Maggie

Acompanho sua página e gosto muito dos seus posts.

Tenho uma dúvida quanto a cálculo dos prazos das traduções e gostaria de saber se vc poderia esclarecer alguma coisa nesse sentido. Sei que devo checar quantas laudas eu faço por dia e isso depende muito do assunto da tradução. Mas gostaria de saber se há uma média de laudas por dia para traduções de textos comuns e de textos técnicos. Tipo um mínimo/máximo aceitável/exigido… e também qual é a porcentagem que se constuma cobrar para traduções em regime de urgência e quais são os critérios.

Desculpe se são muitas perguntas,.. qualquer luz que você puder enviar neste sentido já será muito bem-vinda.

Desde já agradeço muito sua atenção.

Maggie

Maggie, obrigado pelas boas palavras. Vamos começar dizendo que, embora a gente fale em laudas o tempo todo a lauda está morrendo. Cada vez mais tradutores e clientes medem o serviço pelo número de palavras do original. Não cobro por lauda desde algum momento do século passado e os últimos baluartes da lauda são a tradução juramentada e a editorial.

Essa mudança de unidade traz inquietação, não só porque coloca a pergunta “se eu ganho X por lauda, quanto devo ganhar por palavra do original” mas, principalmente pelo medo fundado ou não, de que, na hora da mudança, o tradutor seja logrado. De um modo ou de outro, fica o conselho: aprenda a pensar em termos de palavras do original.

A tua produção diária depende de vários fatores, principalmente de você própria. Há tradutores mais e menos produtivos, por mais motivos do que eu vou discutir aqui. Um dos fatores, entretanto, é a adequação do texto às qualificações do tradutor. Por exemplo, eu traduzo finanças muito mais rapidamente do que traduziria física. Na fase da carreira em que estou, posso me dar ao luxo de rejeitar física, mas o iniciante nem sempre tem esse privilégio. Além disso dentro do mesmo assunto, há textos cuja tradução flui mais rápido do que outros: a velocidade de fluxo está mais ligada ao estilo do autor do que ao assunto. Finalmente, há o tipo de arquivo: mesmo quando se usam (como se deveriam usar) ferramentas de tradução assistida por computador, traduzir um MSPowerpoint sempre demora mais que traduzir o mesmo texto em MSWord.

Tudo isso deveria ser levando em conta para calcular um prazo (e um preço). Lamentavelmente, nem sempre – ou melhor, quase nunca – é possível. Então a gente vive de médias, às vezes se dando bem, outras vezes se dando mal. O cliente sempre puxa um pouquinho (ou muitinho), mas o tradutor tem de tomar cuidado, porque, no fim das contas, a responsabilidade é nossa.

Em condições normais de temperatura e pressão, eu – eu, Danilo Nogueira, não você – me comprometo com 2500 palavras por dia. Até 4000 palavras por dia, até que vai, mais do que isso, só em casos e condições muito excepcionais e por períodos muito breves, coisa de dois ou três dias. Tem gente que se compromete com 10.000 palavras por dia e vira a noite, essas coisas. Eu não nunca tive vocação para herói.

O que é urgente e o que não é, depende muito mais das circunstâncias em que o tradutor se encontra do que de qualquer outra coisa. Por exemplo, 2000 palavras em 24 horas, se você não tiver o que fazer, é moleza. Se você estiver atolada, é impossível e não há dinheiro que mude essa situação.

A taxa de urgência, muitas vezes é só um artifício para ocultar o preço verdadeiro. O sujeito cobra dez, mas, quando o cliente pede a cotação, diz que cobra sete. Aí, cota o prazo e o cliente diz que precisa antes. Aí o tradutor diz que então tem taxa de urgência e cota dez. Acho pouco ético.

Só cobro urgência para evitar abusos, como aquele do cliente que liga toda sexta-feira para pedir um serviço para segunda de manhã, jurando que precisa do serviço para uma reunião logo cedo. Nesses casos, eu cobro uma taxa que, entre nós, eu chamo probatório-dissuasória: o cliente tem que me provar que realmente precisa daquilo para aquele dia e eu tenho que dissuadir o cliente da ideia maluca de estragar meu fim de semana. Então, boto 50% a mais no preço e digo que, se puder ser para terça-feira (ou quarta, ou o que seja), fica por bem menos. Acho justo.

 

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